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Abecásia

Vale encantado – Pt. 1

Sukhumi, 22 de dezembro de 2018.

Diferentemente do dia antecedente; singelas gotas de chuva umedecem a minha longa e robusta vestimenta, enquanto eu caminho solitariamente pelo decadente, obscuro e esquisito passeio de Sukhumi.

Apesar das sombrias e inapreciáveis condições climáticas, um vultoso estado de euforia me domina a cada passo efetuado sobre o pavimento deteriorado.

Inconteste, naquele momento, a minha mente encontra-se em ebulição. 

Para mim, é dificultoso compreender qual é o motivo autêntico do hipnotismo que eu vivencio. Seria o simples fato de eu estar na capital de um breakaway state¹, um território dominado por milícias e das quais estruturas de poder estavam corrompidas por composições com propósitos escusos?

Seria em razão dos mistérios que envolvem o local, e que parecem incompreensíveis?

Seria devido à convergência de elementos naturais e estéticos do cenário que eu me encontro, especialmente a costa do Mar Negro?

Ou, talvez, seria derivado da iminente concretização de uma exploração que há significativo tempo me seduz, e que representaria, nada menos do que uma incursão na região mais infame, insegura e volátil de um território que, intrinsecamente, é reputado como obscurecido?

Clarificação complexa. Tinha que me contentar que esse era mais um enigma com o qual eu precisaria conviver. E, naquele instante, igualmente, já me resignava que essa era meramente a primeira incógnita irresolúvel do dia.

Ao adentrar no veículo com o qual eu me deslocaria até o pretenso destino, inalo, por vezes, suavemente o ar e o exalo de maneira ainda mais serena. 

Era como se tratasse de um ritual predecessor da minha jornada, envolvente, mas, ao mesmo tempo, audaciosa e ousada.

Ainda, antes de inserir a chave na ignição e impulsionar a movimentação do motor, ecoa na minha mente um aviso proferido por um insólito ancião no dia precedente: “Se for para Tkvarcheli, não vá sozinho”.

Nada obstante, de imediato, penso e enuncio: “Bobagem, nada irá acontecer em Tkvarcheli”.

Ao longo da rota, há uma perceptível transmudação dos panoramas. Embora a decadência fosse evidente em Sukhumi e em seu entorno, a cada quilômetro que me afasto da capital há uma inequívoca  intensificação do declínio e do perecimento.

Se antes, grande parte das edificações estava em condições precárias, porém ocupadas. Agora, as construções que visualizo, além de desocupadas, se revelam em um estado acentuado de degeneração.

Pelo caminho, o brilhantismo da natureza (cadeia de montanhas, mar, vales e vegetação) se opõe às ruínas de múltiplas construções esquecidas, compondo verdadeiros vilarejos fantasmas.

Os contrastes são impactantes, paralisantes e, de certo modo, sublimes. Inarredável, nesse instante, o exsurgimento de reflexões e a incursão em fantasias que encontram, no meu intelecto,  esfera fecunda para o desenvolvimento.

Na minha mente, a realidade do momento histórico presente se mistura com os devaneios que realizo acerca do passado.

Há um magnetismo que emana desses lugares esquecidos e abandonados que circundeiam o caminho, ao ponto de eu, na minha imaginação, ser transportado para o passado; época em que a suntuosidade e a prosperidade se sobrepunham sobre a decadência.

Essa jornada mental é, entretanto, interrompida por uma sonora buzina proveniente de um arcaico caminhão soviético pedindo passagem pela estreita rodovia que eu percorria.

Ao menos, ela é pertinente para que eu me concentre no caminho e não mais me disperse com a fertilidade da minha imaginação.

Pela minha estimativa, faltam quinze quilômetros adicionais para que eu chegue em um dos epicentros do conflito georgiano-abecásio, ocorrido em 1992-1993, e local de mais explícita percepção do declínio abecaso : a infame Tkvarcheli […]

TO BE CONTINUED (CONTINUA)…

 ¹Breakaway State ou Estado Separatista é um território que possui, praticamente, todos os aspectos que formam um país (governo autônomo, população e território). Porém, por questões políticas, não é reconhecido pelo comunidade internacional como país. Ou seja, em tese, é um país de facto, mas não de jure (de direito).

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Geórgia

Tenebroso mausoléu

Acordo, tomo café, olho pela janela, me deparo com os raios de sol inaugurais de uma fria manhã do inverno georgiano; um verdadeiro alento após dias e mais dias de sombridão e ausência de quaisquer vestígios do astro celeste.

De imediato, estimulado pelos raios que irradiavam através das desgastadas janelas de uma antiga fábrica de costura soviética, lembro de um lugar próximo, no mínimo intrigante, que, por acaso, havia descoberto em uma única página da internet.

Tento, por mais uma vez, pesquisar sobre ele. Entretanto, as minhas pesquisas remetem apenas a mesma página, que indica somente a vila em que o lugar está situado, porém sem precisar a localização exata.

Indago alguns nativos. Todavia, todos demonstram total desconhecimento acerca da existência de tal lugar, ao ponto deles, sutilmente, externarem que eu deveria estar enganado e que esse local era um “delírio da minha imaginação”.

Nada que desestimule a minha jornada. Longe disso, era a validação da autenticidade do objeto da minha exploração, o que despertava em mim um sentimento de efervescência.

Antes de partir para a vila, estudo minuciosamente o trajeto, já que, durante boa parte do percurso revelava-se como provável a indisponibilidade de internet e sinal de GPS (dada a localização remota da povoação).

Minutos depois, já estou dentro do carro que havia alugado, pronto para partir para o vilarejo aparentemente inocente e pacato.

Ao passo que me aproximo do povoado, o cenário se transmuda. Carros são substituídos por carroças, edifícios por plantações, asfalto por estrada de terra, gatos e cachorros por ovelhas, jovens por anciãos, pombos por corvos.

Até que chega o momento em que visualizo inserto, em uma enferrujada e deteriorada placa: Akhalsopeli.  

Era a tão esperada vila. 

Bastava, agora, perguntar a localização exata do meu pretenso destino ao primeiro indivíduo que eu encontrasse.

Alguns metros adiante, me deparo com um habitante do lugarejo, um ancião com uma longa barba branca, uma face marcada pelo passar do tempo e um degradado cajado em suas mãos.

Ao perceber que eu iria parar para conversar, ele, efusivamente, me recepciona com calorosos acenos. 

Para retribuir tais gestos, aperto entusiasticamente as suas enrugadas mãos. E, em seguida, já aproveito para lhe indagar acerca do meu enigmático destino.

Incontinenti, no exato instante em que pronuncio a palavra Stalin, o semblante dele se transforma drasticamente.

É um efeito retumbante, que muito me amedronta. Tenho a impressão de que esse amaldiçoado nome lhe despertou sentimentos há muito tempo ocultos em seu interior; ao ponto em que o sorriso amigável transmuda para um sorriso um tanto aterrorizador.

Com medo dessa transfiguração, lhe agradeço e, rapidamente, sigo a viagem.

Mais alguns metros a frente, encontro uma simpática e elegante velhinha balançando, no jardim da sua casa de pedra, uma fabulosa toalha de mesa com estampas retangulares.

Ao me ver, ela se aproxima um pouco da estrada, de maneira que eu aproveito para lhe indagar sobre o meu destino. 

De pronto, ela me sinaliza que tal local estava ao meu lado. Era nada menos do que a construção adjacente.

Em um olhar menos atento, sob a perspectiva externa, o local parece ser apenas uma casa igual as tantas outras casas com ares decadentes da vizinhança.

Ledo engano, ao me aproximar um pouco mais da residência, visualizo a primeira indicação de que aquele lugar apresentava uma singularidade: um pequeno e quase imperceptível mosaico inserido no portão, que estava fechado.

Sem campainha, bato palmas e profiro algumas palavras no idioma local para que o morador ou algum responsável pelo local me atenda.

Sem sucesso, percebo que o portão, apesar de fechado, não está trancado. Assim, o abro e já me deparo com uma estátua gigantesca aos fundos (não visível da parte externa), provavelmente dando boas-vindas e sinalizando aos esparsos visitantes o que lhes espera.

Embora já dentro do local, permaneço no limite entre o terreno privado e o logradouro público, paralisado pelo impacto inicial.

De repente, vejo um vulto que, ao me visualizar, vem ao meu encontro para desejar boas-vindas com entusiasmo e extrema cordialidade.

Sem precisar proferir palavra alguma, sou convidado para adentrar um pouco mais. 

Era lógico, conquanto ele não soubesse o porquê de eu estar lá, não possuía dúvidas acerca do que eu queria contemplar.

Após alguns passos, visualizo um imenso jardim; repleto de estátuas, estrelas vermelhas, cartazes da época da União Soviética e variados retratos originais de Josef Stalin.

Estava claro. Muito mais do que um mero museu particular, o local era um templo particular de adoração e culto de uma personalidade.

Entusiasmado com a minha visita, o simpático, porém no mínimo intrigante, georgiano vai abrindo inúmeras portas que levam a outros locais inimagináveis do jardim da sua residência, ao mesmo tempo em que insiste para que eu lhe acompanhe.

Fontes, estrelas e mais estrelas vermelhas, bustos, estátuas e mais estátuas (douradas, pratas, vermelhas), retratos em diferentes perspectivas e, até mesmo, um foguete da época da União Soviética intacto; cada parte do jardim que adentro reserva algo diferente, porém sempre convergente ao mesmo propósito: a devoção a uma personalidade.

Além das partes à céu-aberto, as inúmeras portas que se abrem me levam à ambientes fechados. Até mesmo para um local que aparenta ser uma gigante sala de reuniões devido à presença de uma longa mesa, várias cadeiras, incontáveis retratos de Stalin pendurados nas paredes, matérias jornalísticas, bustos, teto um pouco rebaixado e iluminação precária (aparentemente proposital).

A disposição de cada objeto me assombra. Tudo parece ter sido posicionado de forma a criar uma sala para reuniões de devotos à Stalin. 

Definitivamente, me sinto incomodado e presente em um local digno das piores cenas de filmes de terror.

Antes de deixar a residência e museu particular, sou chamado pelo proprietário, que se demonstra eufórico, a visitar outra parte da sua coleção. 

Pela simples leitura da sua linguagem corporal, percebo que o local que ele pretende me levar era o ápice da sua exposição.

Calmamente, ele tira um molho de chaves do bolso e solicita para que eu lhe acompanhe. 

Em uma parte completamente escondida do jardim, ao que ele afasta um pouco da vegetação existente, vejo uma envelhecida e desgastada porta marrom.

Imediatamente após abrir essa porta, ele insiste para que eu entre no local. Fico um pouco receoso. De fora, posso visualizar, na quase completa escuridão, um revestimento vermelho aveludado nas paredes e a presença de uma pequena vela.

Sucumbo à insistência dele e à grande curiosidade, entro na sala e, o que lá visualizo, me deixa sobremaneira desestabilizado.

Ao mesmo tempo em que sinto imensa repulsa pelo que vivencio, a curiosidade me instiga a permanecer, ao menos, por alguns segundos frente a esse tenebroso cenário.

No ímpeto de observar a completude da cena, porém, igualmente, evadir esse local o quanto antes; direciono a minha visão, aceleradamente e progressivamente, a todos os detalhes do ambiente.

Contudo, antes que eu conclua esse exame panorâmico do espaço, noto que o proprietário do museu me pede insistentemente para fotografar a sala.

Para atender ao seu pedido, efetuo alguns registros fotográficos, e, logo, volto a minha atenção para a contemplação do recinto.

No centro dele, paira um caixão envolto por inúmeras rosas vermelhas, velas com teias de aranha e uma sórdida coroa de espinhos; estando preenchido por algo repugnante.

Nas paredes, evidencio a presença de diversos retratos empoeirados com as mais diferentes poses e perspectivas de Ioseb Besarionis Dze Jughashvili.

Antes que eu reconduza a minha atenção para os elementos mais sórdidos do ambiente, o piscar de uma das luzes é o sinal para que eu deixe o lugar.

Ao sair de lá e no início do retorno à Tbilisi, me sinto ainda um pouco transtornado com tudo que presenciei. Porém, as reflexões feitas durante o trajeto (de cerca de 40 minutos) e as incríveis dádivas da natureza, apreciadas no caminho, permitem que eu me recupere antes de voltar à Tbilisi. Afinal, era véspera de ano novo e as manifestações da natureza (pássaros, formação das nuvens) estavam sendo magníficas.

A fotografia ora exposta retrata, na minha concepção, o segundo lugar mais impactante do museu particular. Em que pese tenha registrado por meio fotográfico o local mais assombroso, considero ele deveras desagradável e, consequentemente, impublicável.

[VERSÃO PARCIAL].

CLARIFICATIONS (ESCLARECIMENTOS):

Essa exploração e a sua publicização, por meio desta plataforma, não representam qualquer espécie de endossamento às ações perpetradas por Ioseb Besarionis Dze Jughashvili e, muito menos, quaisquer intenções de veneração ou reverência a sua figura.

Trata-se apenas de uma contemplação de resquícios de um determinado momento histórico, de uma tentativa de compreensão do funcionamento psíquico e de uma procura por uma evolução intelectual, qual seja, a incursão em um estado ainda mais reflexivo. 

Em essência, visitar um lugar como este propicia o exsurgimento de reflexões acerca da humanidade e da concepção concernente ao que é ser humano.