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Abecásia

Vale encantado – Pt. 2

Pela minha estimativa, faltam quinze quilômetros para que eu chegue em um dos epicentros do conflito georgiano-abecásio, ocorrido em 1992-1993, e local da mais explícita percepção do declínio abecaso : a infame Tkvarcheli¹.

Apesar da neblina encobrir parte significativa da paisagem montanhosa ao longo da rota, os panoramas visíveis revelam um magnificente ecossistema constituído por coníferas dos mais diversos tamanhos e aspectos, hortênsias e plantas tropicais, isso devido à proximidade com o Mar Negro.

À exceção da estrada pavimentada que eu percorro, não se avista qualquer outro sinal caracterizador de intervenções humanas.

Verdadeiramente, me situo em um vale verdejante, da qual cerração ora presenciada lhe confere uma aura ainda mais misteriosa. 

Parece um prenúncio do que me espera na sombria e sedutora Tkvarcheli.

Em questão de minutos, me deparo com uma oxidada e desgastada placa, na qual resta inscrito “Distrito de Tkvarcheli”.

Essa simples indicação ressoa pela minha psique. Trata-se de um momento de imensa significância, pois materializa algo que eu ambicionava demasiadamente: vivenciar a realidade de Tkvarcheli, me expor à metafísica e à energia emanada dela; ao ponto em que esses elementos nela enraizados me conduzissem ao passado.

Sem que haja tempo para que eu me restabeleça, me defronto, logo na entrada da cidade, com extensas chaminés de concreto circundadas por imponentes edificações em autêntico estilo arquitetônico soviético.

De imediato, esse cenário já me reporta aos tempos áureos da União Soviética e à época do ápice econômico e desenvolvimentista de Tkvarcheli, uma das cidades industriais mais promissoras da antiga República Socialista Soviética da Geórgia.

Porém, antes de explorar esse assombroso complexo industrial, decido prosseguir a jornada até a área central da localidade.

Mesmo estando há poucos minutos no povoamento, as contemplações prefaciais já consolidam a idealização que eu nutria acerca dele.

Inconteste, existem similitudes entre Tkvarcheli e demais cidades da antiga União Soviética, especialmente o estilo construtivo, o método de urbanização, a sombriedade e o aparente modo de vida da população.

Por outro lado, ainda mais notáveis são as suas dissemelhanças.

As que mais me sensibilizam, me envolvem e me fascinam são a integração do espaço urbano com a natureza; o posicionamento geográfico da localidade, que ameniza a melancolia energética e estética da cidade; a deslumbrância dos elementos naturais; a proeminência dos contrastes entre momentos históricos; e a existência de reverências estéticas à Vladimir Ilyich Ulianov.

Ao percorrer a zona urbana da cidade, nota-se que; além da maior parte das edificações estar desocupada, deteriorada e em estado precário; há uma gradual retomada, por parte da natureza, dos espaços em que houve intervenção humana.

Em algumas partes, o processo é mais lento. Em outras, já ocorreu a recomposição quase completa da vegetação.

Esse abandono extensivo, embora confira melancolia à paisagem, realça a extraordinariedade da localidade.

Ao tempo em que as nuvens se dissipam e o sol resplandece, o encantamento pelo local se intensifica.

Diante dessa transmudação atmosférica, posso apreciar com ainda mais amplitude o panorama do vale em que estou inserido.

Tudo é muito autêntico, bucólico e campestre. Não importa a orientação para qual eu direciono o meu olhar; seja para o leste, oeste, norte ou sul; a paisagem é sempre idêntica: extensas áreas com vegetação, à primeira vista, nativa; protuberâncias topográficas imponentes, algumas até com resquicíos de precipitações nevosas; esparsas edificações desgastadas pelo transcurso do tempo; animais domesticados que vagueiam pelas mais diversas superfícies. 

Ao mesmo tempo em que admiro essa confluência entre características inusitadas, me convenço que estou incorporado e situado em um dos lugares mais enigmáticos e sublimes que visitei, não somente em razão das perspectivas estéticas e físicas observadas, mas também por causa dos sentimentos que ele me proporciona.

Nesse instante, sinto que seria a hora de incursionar pelo complexo que havia me recepcionado quando da minha chegada à Tkvarcheli.

De longe, as janelas quebradas, os portões enferrujados, as grades delapidadas, os muros cobertos por arbustos, os concretos rachados, a pintura dilacerada, as plantas que se estendem pelas paredes das fachadas e a estagnação dos ponteiros de um decadente relógio indicam a integral desocupação e abandono da área industrial.

Porém, após alguns passos, essa impressão desvela-se uma ilusão.

Vozes de pequena intensidade, sons provenientes do funcionamento de máquinas e a existência de um tanto antiquado automóvel soviético levam à conclusão de que, mesmo que parcialmente, a estação de produção de energia elétrica ainda é utilizada; até mesmo porque um imenso portão encontra-se aberto.

Parece um sinal para que visitantes adentrem e um convite à exploração.

Atraído por essa entrada escancarada, ingresso nesse espaço espectral. 

Em uma apreciação inaugural, o que mais me hipnotiza são as elevadas torres de emissões de fuligem, que, mesmo inoperantes, ainda conservam a sua suntuosidade. 

De imediato, esse panorama me transporta para o primórdio da década de 90 e instiga a minha imaginação.

A todo momento, flashes surgem e desaparecem na minha psique em uma cadência extasiante. Basta piscar os olhos para que eu, conectado a um devaneio, enxergue operários e mais operários a minha frente sedentos pelo seu ofício e operacionalizando cada uma das engrenagens de funcionamento da termoelétrica; remontando à época do apogeu da cidade.

Ao que me desloco para zona diferente da usina, essas cenas se esvaem e inéditas despontam. Desta vez, as construções moderadamente em ruínas me guiam aos meses iniciais de 1993, período do cerco de Tkvarcheli.

O sentimento de pavor é intenso. Helicópteros e aviões geórgios pairam sobre mim despejando artefatos e mais artefatos explosivos sobre o complexo, ocasionando a instantânea destruição das edificações. 

Por sorte, esses acontecimentos não se sucedem no momento presente. Tratam-se, mais uma vez, de flashes do passado, quando o local foi severamente bombardeado, de modo que, durante um ano, a cidade permaneceu sem energia elétrica.

Após essas jornadas a datas pregressas, consigo, enfim, me concentrar nos detalhes do que está ao meu alcance visual.

Além da excentricidade das chaminés, um amplo prédio em concreto aparente me seduz profundamente, seja pela sua precariedade situacional – inegavelmente a estrutura mais danificada pelos bombardeios -, seja pela sua feição construtiva – com janelas quadriculadas, a maior parte delas sem vidro, pelas diferentes dimensões de largura, desde a base até o seu ponto culminante, pelos blocos nele utilizados, pelas molduras formadas pela sobreposição e interligação de elementos construtivos.

Parece um sonho, mas, realmente, estou na obscura Tkvarcheli; resta, assim, somente abrir a mochila, retirar o lanche que eu havia preparado cuidadosamente de manhã e o degustar enquanto a minha mente tenta desvendar os mistérios dessa cidade esquecida pelo tempo.

[VERSÃO PARCIAL].

¹Cidade localizada no Estado soberano auto-declarado da Abecásia, situado entre a Rússia e a Geórgia e que possui limitado reconhecimento internacional. Em essência, somente cinco países reconhecem a independência da Abecásia: Rússia, Nauru, Venezuela, Nicarágua e Síria. Interessante destacar que, apesar do Brasil não ter reconhecido a independência da Abecásia, não se opôs; adotando conduta de neutralidade.

Tkvarcheli foi uma das cidades mais afetadas durante a guerra georgiano-abecásio (1992-1993), tendo sido imensamente destruída pelo exército geórgio e permanecido sitiada por um ano. 

Desde o fim do conflito, ela não se recuperou economicamente e nem socialmente. 

A decadência e a pobreza imperam, a despeito dela se posicionar em um local naturalmente privilegiado.

3 respostas em “Vale encantado – Pt. 2”

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