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Bósnia e Herzegovina

Mostar sob o manto do amor

Março de 1994, o cerco de Mostar chega ao fim. 

Ao mesmo tempo em que esse novo cenário representa um alento para os seus habitantes, desperta, igualmente, incertezas e dificuldades.

Há um sentimento de desafogo circundado por incógnitas que somente serão respondidas ao longo do tempo.

24 anos depois, instigado por um propósito, me encontro nessa pequena cidade dos Balcãs.

Mesmo depois de tanto tempo, os vestígios daquele período sombrio ainda são perceptíveis. 

Logo na entrada da cidade, me deparo com sinais daqueles tempos de ódio: marcas de bala dos mais variados calibres em diversos prédios.

Mas, na realidade, não é isso que me impressiona. 

Sobrepostas às paredes interiores desses prédios abandonados, evidencia-se uma multiplicidade de manifestações artísticas.

Essas obras ao mesmo tempo em que se revelam singelas, me impactam imensamente em razão do contexto em que estão inseridas e da alta carga sentimental que irradiam.

A mais notável delas é justamente uma das mais modestas na forma, porém profunda em seu significado.

Sobre incontáveis marcas de bala, há a pintura de um retrato, em preto e branco, de uma mulher.

Metade de sua face resplandece, outra é marcada pela escuridão. 

Na parte clarividente, se nota um olhar de esperança.

Na metade escura, o olhar é substituído por uma marca de bala; como se significasse o desejo de não ter presenciado os acontecimentos daqueles tempos sombrios ou a obstrução da visão da realidade pelo ódio e fanatismo. 

Após essa breve exploração, é hora de seguir, e ir em busca daquilo que havia motivado a minha visita ao interior da península balcânica.

Minutos depois, me encontro no epicentro do centro histórico.

A esplêndida convergência entre elementos naturais (águas cristalinas, montanhas e vegetação verdejante), apesar de sublime, não é o que me desestabiliza e nem o que me remete a incursões psíquicas enigmáticas. 

Sinto que algo ainda mais significativo acontece, nesse instante, nesse local. 

Estimulado por essa percepção extrassensorial, passo a caminhar lentamente sobre as imensas e majestosas pedras brancas, que pavimentam as ruelas da cidadela, com o intento de desobscurecê-la e propiciar a transformação dessa abstração em concretude. 

Nessa jornada andante; percorro estreitos labirintos, envoltos por magnificentes casas do período otomano; atravesso imponente ponte em forma de arco, constituída por pedras escorregadias; me defronto com suntuosas mesquitas e os seus minaretes; e presencio fascinantes artes urbanas.

Porém, nada aparenta ter sentido. 

A bem da verdade, há uma inegável significância no que fora contemplado e nos ecos mentais originários das apreciações; mas não ao ponto de transmudar a mente para outras dimensões, para períodos históricos diversos e conduzi-lá a um estado de intensa reverberação de ideias e pensamentos.

Parecia que a minha singela caminhada havia me distanciado do desvelamento do ponto nuclear de irradiação do sentimento que me dominava.

Entretanto, bastam cerca de 10 passos para que essa impressão revele-se equivocada. 

Atrás de algumas árvores repletas de folhas secas, visualizo um prédio, em concreto aparente, presumidamente abandonado.

Incontinente, como uma bússola, sinto que um imã me atraí até lá.

Estimulado por esse magnetismo, apresso os meus passos na ânsia de ser contagiado pela significância que de lá emanava.

Em pouco mais de 1 minuto, me encontro frente a frente dessa edificação inabitada.

Nesse momento, inexistem dúvidas que estou diante da infame torre dos snipers, palco, na época da guerra da Bósnia, das mais abomináveis demonstrações de ódio.

De fora, antes de pular o muro para entrar no local, dado que as entradas estavam bloqueadas, já posso notar um metamorfismo.

Embora, ainda não restasse inconteste, havia uma transformação em curso.

O início da exploração quase me faz pensar que essa metamorfose não passava de uma mera ilusão, em razão da predominância do caos e da sombridão.

Apesar disso, eu experienciava uma intensificação do campo magnético, como se indicasse a proximidade daquilo que eu procurava.

Metros adiante, sinto como se eu ingressasse em um portal.

A sombridade e a escuridão vão sendo gradualmente sobrepostas por belas manifestações artísticas, que irradiam luminosidade e brilhantismo para o entorno.

De imediato, tenho a convicção de que o ódio que emanava desse local foi substituído pelo amor, este propagado pela arte ora presenciada.

[…]

[VERSÃO PARCIAL].

CLARIFICATIONS (ESCLARECIMENTOS):

Durante o cerco de Mostar (1992-1994), atiradores de elite (snipers) croatas se posicionavam nos pontos mais altos da edificação conhecida como “Sniper Tower”. De lá, eles atiravam nos indivíduos que aparentassem pertencer ao grupo dos bósnios muçulmanos. Hoje, o local encontra-se abandonado.

2 respostas em “Mostar sob o manto do amor”

Grande Luiz, além de muito bem escrito o texto nos desperta a curiosidade para buscar mais informações acerca da guerra, e de outras, objetos das narrativas. Que continues escrevendo as tuas experiências, que são por demais bem construídas, transmutadas, em palavras. Parabéns. Abração.

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