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Uma noite na Reeperbahn – Pt. 2

Em segundos, lá estava eu, no epicentro da pista, contemplando a multiplicidade de emoções que reverberavam na minha mente e no meu coração ao pulsar de cada batida que era entoada.

Meus olhos se abriam e fechavam incessantemente, no ímpeto de constatar se aquilo que eu estava experienciando era verdade ou não passava de um simples devaneio.

Para mim, era difícil acreditar que isso tudo era concreto.

Entretanto, cada vez que meus olhos se abriam, minha convicção se fortalecia.

A crença na autenticidade daquilo que estava vivenciando se intensificava na mesma progressão da composição que adentrava com suavidade nos meus ouvidos.

Eu ouvia e reconhecia todos os elementos musicais. Mas um, em específico, conferia um brilho excepcional com o seu som grave, mas ao mesmo tempo suave.

Quando a música que era entoada se esvai, sendo gradualmente sobreposta, meu olhar e a minha mente se voltam para o espaço físico, que, até então, havia sido ignorado.

A sombridão do local era digna de equivalência ao ambiente externo.

As paredes delapidadas pelo tempo mais pareciam com as paredes dos diversos complexos militares alemães abandonados, especialmente na antiga Alemanha Oriental.

Os pilares, em concreto aparente, me reportavam aos inúmeros prédios residenciais abandonados que já havia visitado.

O caminho para o banheiro, mesmo, parecia que me conduzia para um túnel de travessia de um trem fantasma, me recordando das vezes que eu, quando criança, incursionava nessa assombrosa atração dos parques de diversão.

Ele era estreito, frio, úmido, parcamente iluminado e com rabiscos aterrorizadores nas paredes.

Como alento, havia uma senhorinha muito simpática logo na entrada do banheiro, que, ao notar o meu desconforto devido à passagem pelo túnel tenebroso, me deu uma aparente doce, quanto amarga, goma de mascar; que, por razões óbvias, não experimentei.

Em comparação com o restante do local, o banheiro até parecia um oásis; apesar de boa parte dos azulejos estarem rachados, e a água da pia entupida conter alguns pequenos e esquisitos insetos.

Ao sair do banheiro, respirei profundamente antes de adentrar, por mais uma vez, no túnel maldito.

Ao passar por esse caminho, até fui seduzido pelos intrigantes efeitos da reverberação que o atingia, esta proveniente do som que emanava da pista de dança, e pelos intrigantes sinais insculpidos nas paredes.

Porém, só de pensar em permanecer mais alguns segundos nesse tenebroso e obscuro espaço, apressei os passos até o retorno à pista de dança.

Estranhamente, a pista, nesse momento, parecia um pouco mais sombria do que antes; impressão causada pela introspectividade e elegância austera na levada da música que se ouvia e pela presença de algumas “figuras” excêntricas, que, até então, haviam passado despercebidas.

Uma dessas “figuras” usava uma peruca laranja, outra uma peruca roxa, outra possuía em seus dedos anéis com a face dos mais diversos animais.

Em especial, uma delas não me parecia estranha. 

O jeito peculiar que ela dançava me lembrava de um emblemático artista, que, em suas passagens pelo Brasil, havia, por diversas vezes, conduzido, em noites memoráveis, espectadores a jornadas musicais enigmáticas até o exsurgimento dos primeiros raios do sol.

Em suas apresentações no Brasil, ele guiava a platéia não somente com a sua música, mas também com as suas mãos, como se fosse um maestro, ao ponto que os movimentos corporais por ele realizados se tornaram um traço peculiar.

Mas, ao mesmo tempo em que haviam tantas semelhanças entre a “figura” que estava do meu lado e tal artista, transcendia a lógica do razoável acreditar que eu estava lado a lado de uma “lenda”.

Para desvelar essa incógnita, só restava uma opção.

Como se fosse íntimo, me aproximei dele e fiz um comentário.

De imediato, ao que ele se vira para respondê-lo, dúvidas não mais restavam. Estava frente a frente de ninguém menos que Mladen Solomun¹.

TO BE CONTINUED (CONTINUA). Mas, desta vez, o desfecho dessa história fica para a versão impressa. 

¹Mladen Solomun é considerado um dos mais icônicos e emblemáticos artistas da música eletrônica, tendo criado verdadeiros hinos. Pode se dizer que, em quase 18 anos de existência do Warung (club de música eletrônica situado na praia Brava, em Itajaí), Solomun é o artista mais identificado com o club e o mais querido pelos amantes; o que não é pouco, pois o templo (cognome carinhoso do Warung) é, para muitos, um dos melhores clubs do planeta. Com base nas minhas experiências ao redor do mundo, digo que poucos locais propiciam as contemplações vivenciadas no templo. Há uma convergência de elementos presenciada em nenhum outro lugar do mundo.

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